
Foto de Jr Korpa na Unsplash
Carona compartilhada
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Carona compartilhada
Tiro a tarde para limpar a caixa de e-mail. Entre anúncios e outras bobajadas, encontro mensagem enviada por Umberto de M. Para quem ainda não o conhece: Umberto está para a literatura mineira como Tia Nastácia para a culinária.
Dito isto — e com a devida permissão do literato — reproduzo o texto:
“Uma amiga de serviço, vendo-me pegar Uber diariamente para trabalhar, sugeriu-me a ‘modalidade compartilhada’. Eu, adepto de experimentar tudo, no dia seguinte embarquei na viagem.
“Sentei-me no banco da frente, pois atrás estavam duas balzaquianas. Peguei a conversa mais ou menos neste ponto:
“— Então, colega, ela foi fazer o exame. Mas teve mais uma daquelas crises que já te falei e acabou não conseguindo mexer. Entregou o gabarito sem preencher e saiu voando. Me ligou, aos prantos. Fui encontrá-la no jardim, nervosa pra burro.
“— E aí? Ela vai perder o ano todo de estudo?
“— É ruim, hein! Você acha que investi um ano de cursinho caro, apostila cara, levando e buscando no colégio de manhã e à tarde pra quê? Pra perder a prova assim, sem mais nem menos? Eu até havia comentado que, caso ela não passasse pra federal, a gente ia arrochar e pagar uma faculdade particular. Ela quer fazer medicina. Claro que eu sei da concorrência, da dificuldade de passar — ainda mais depois que inventaram essas malditas cotas… Mas, com a nota do ENEM, a gente ia tentar desconto, FIES, esses programas do governo, sabe?
“— E agora, que ela não fez a prova?
“— Não fez naquele dia. Foi reaplicada.
“— Como?
“Também me fiz esta pergunta, caros leitores. E, aproveitando que o motorista se concentrava em nova solicitação de corrida, dei uma olhadela para trás. Sim: também sou indiscreto — como vocês.
“A dona, indiferente à minha pessoa, prosseguiu:
“— Ora, simples. Meu marido... acho que já te falei que ele é advogado, né? Fez um recurso e mandou pro MEC, pro INEP, um daqueles órgãos lá de Brasília. Juntou atestado do nosso médico dizendo que, no dia da prova, nossa filha estava com umas daquelas crises... e, por causa disso, teve de entregar o gabarito sem preencher.
“— Nossa! Ela continua pensando que…
“— Aham.
“— Tadinha.
“— Mesmo medicada, aquele desejo de virar Diaethria clymena volta de vez em quando.
“— Uai, e não deu problema o fato de ela ter ido fazer prova assim?
“— Menina, meu marido manja dessas coisas. Advogado no Brasil sabe como é… tira leite de pedra e faz chover no sertão ao mesmo tempo. Ele garantiu que ia dar certo. E deu. Ela fez os dois dias de prova. Correu tudo bem, graças a Deus. Agora é aguardar o resultado.
“Desci na esquina da Deodoro com a Vargas. Por ali tem uma padaria que faz umas coxinhas divinas! Recomendo aos leitores glutões.
“Matei a fome, fiz a fezinha do dia e fui trabalhar.
“No elevador, encontrei a amiga que me indicara a carona compartilhada. Quis saber se gostei.
“Gostei?
“Adorei! Amanhã repetirei a dose.
“Vamos também, borboletíferos leitores?”

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