Trechos inéditos do livro V4T3R – Parte I: O Basilar e o Padre de Eduardo Magela Rodrigues



Trecho I


Assim que termina de abrir a porta, o sacristão se senta no último banco. O ranger de madeira que preenchia o ambiente cessa e dá lugar ao silêncio. Todos os presentes olham para o altar, onde o Meu Destinatário permanece de pé. Ele sabe que os seus fiéis aguardam uma manifestação sua; esperando que diga algo que lhes propicie um mínimo de alívio. Ele compreende, também, qual é o motivo para a presença daquele grupo ali: essas pessoas não buscam Amaro, elas anseiam pelo Padre. Em sua inocência, contudo, ignoram algo essencial: o fato de que, enquanto um sacerdote — um negador, um caluniador e envenenador profissional da vida — for aceito como uma variedade superior do homem, não haverá salvação.


Sinto, porém, que — em seu íntimo — o Meu Hospedeiro não deseja fazer o que todos ali esperam que faça. O ato de falar sobre a importância de manter a fé e crer em dias melhores se transformou, para ele, num abjeto exercício de hipocrisia. Enquanto lança um olhar sereno para a sua plateia e cumprimenta a todos com um protocolar aceno de mão, Amaro questiona a sua capacidade de falar sobre um Deus no qual deixou de acreditar. Como pode guiar um rebanho se ele mesmo se considera sem rumo, indeciso sobre o caminho a percorrer? Como falar sobre a importância de crer, se ele próprio descobriu que fé significa, na verdade, a vontade de evitar saber o que é verdadeiro?

— Bom dia, irmãos — diz, a voz disfarçando a angústia que o corrói por dentro. — Que o Senhor esteja convosco!

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Eis, aí, outra nuance dos humanos que me confunde: a capacidade de esconder os seus reais sentimentos atrás de gestos, palavras, atos ou omissões. Por que o Meu Destinatário simplesmente não externa a aflição que tanto o incomoda? Talvez, em eras imemoriais — no alvorecer de minha espécie —, os basilares tenham conseguido ocultar a verdade dos seus pares. Em nosso estado evolutivo atual, entretanto, não consigo encontrar lógica nas mentiras que os Homo sapiens sustentam, por mais bem-intencionadas que sejam.

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— Ele está no meio de nós! — responde, prontamente, a diminuta assembleia; os semblantes exteriorizando a sua avidez por ouvir o que sacerdote tem a dizer.

Ele não está mais. Talvez nunca tenha estado. Capto as palavras atravessando os pensamentos de Amaro enquanto abre um grosso livro — intitulado Bíblia Sagrada, que

jaz sobre a mesa do altar —, posicionando-o numa página previamente marcada por uma fita vermelha. Por que deveria ser assim? Se Deus é amor, como Ele poderia abandonar aqueles a quem deu tudo, recuando e se fechando a essa distância?


Trecho II

Visto que o conceito inexiste em nossa civilização, confesso que — no início de meus estudos sobre o Homo sapiens — tive dificuldades para entender por que a Religião ocupa um espaço tão proeminente entre os terráqueos. A ideia de buscar amparo numa entidade metafísica; ou de confiar seu destino às decisões arbitrárias de um ser transcendental; ou — ainda — de acreditar nos poderes de uma criatura onipotente; atentava contra a lógica fria que nos guia. Mesmo com nossa avançada tecnologia, a existência de uma deidade nunca se comprovou cabalmente, em nenhum dos demais planos dimensionais aos quais temos acesso.

Assim, se a tarefa da Religião visava reconectar os humanos com Deus, a ausência Deste invalidava quaisquer argumentos a favor de qualquer doutrina. Ao progredir em minha pesquisa, contudo, acabei por descobrir que os terráqueos nunca enxergaram a Religião como uma resposta lógica para seus problemas e aflições, nem buscavam nela explicações embasadas em teorias científicas. Acreditar num Ser Superior nunca implicou a obtenção de comprovações irrefutáveis da existência da deidade. O único requisito exigido dos crentes sempre foi a fé: a confiança incondicional no julgamento do Divino; e no poder Deste de influenciar positivamente e proteger a vida de seus seguidores.

Curiosamente, o mesmo evento que ocasionou o surgimento das crenças humanas também possibilitou à espécie dominar o planeta, mesmo não sendo a fisicamente mais forte ou a mais numerosa: um significativo crescimento do cérebro. Este aumento da massa encefálica proporcionou ao Homo sapiens a capacidade de especular sobre o mundo que o cercava, mas também fez com que adquirisse consciência de sua finitude pessoal. Tal epifania requereu a criação de algo para aliviar a angústia da transitoriedade: um atenuador com durabilidade desqualificada e ilimitada, impossível de se alcançar no mundo real das coisas materiais.24 Em dois irônicos paradoxos, o homem criou o seu Criador, na esperança de Ele o salvasse da morte; e criou também a Religião, para se conectar Àquele a quem nunca efetivamente se ligara. Todavia, a despeito dos contrassensos que carregavam, os dois conceitos vicejaram, pois proporcionavam aos seus adeptos um senso de coerência e a sensação de que participavam de uma história mais grandiosa. 


De forma irônica, porém, a constante evolução intelectual dos humanos possibilitou que o mesmo cérebro que criou Deus e a Religião fosse usado para questionar a existência de Ambos. À medida que a Ciência humana — mesmo em sua precariedade, note-se — avançava e angariava novos conhecimentos, contestavam-se os mitos e dogmas religiosos construídos para explicar o mundo. Para as mentes mais céticas e sagazes dentre os terráqueos, existia uma clara incompatibilidade entre as mazelas da Humanidade e a ideia de uma entidade onisciente e onipresente. Como crer num Criador benevolente e zeloso enquanto a guerra, a fome e peste desolavam nações inteiras? Se Deus podia fazer tudo, por que Ele permitiu o sofrimento dos bons e justos? Tais questões — carregadas de antíteses insustentáveis, se examinadas pelo olhar impiedoso da Lógica — alimentaram, ao longo de vários séculos, a descrença dos pensadores. Isso acabou por minar a outrora inquestionável autoridade da Igreja, culminando com um filósofo afirmando que Deus morrera. Com o passar do tempo, o número de ateus cresceu e o mundo se curvou diante do poder metódico que emanava do saber científico.


O período de cataclismos mostrou, contudo, que a Ciência tampouco conseguia proteger a Humanidade. A fúria da Natureza, as doenças trazidas pelas águas, a irracionalidade que se espalhou entre os sobreviventes comprovava isso. Monumentais obras e complexas estruturas — criadas pelos mais brilhantes cérebros terráqueos — se mostraram indefesas diante da força das intempéries e acabaram inclementemente obliteradas por tempestades e inundações. Emparedados pela destruição, pela morte e pelo desespero; e equilibrando-se precariamente à beira do precipício da extinção, os sapiens de novo se voltaram para Deus. Desassistido pela impotente Ciência, o homem enxergou — novamente — na Religião o único caminho para a salvação.



Trecho III

— Ninguém protesta contra um ente que está morto — a beldade, diante da inércia do religioso, continua. — Ninguém grita contra alguém que não existe. Ninguém reclama de abandono com quem o abandonou. Você somente faz isso porque ainda acredita e sabe que Ele está por perto. Você sabe que Deus não está morto, Ele está apenas em silêncio.


O choque de descobrir que — a despeito de todos os fatos e evidências contrárias — uma parte de si ainda acredita no Onipotente é arrebatador. Durante dois longos e atribulados anos, Amaro se enxergou como aquele cuja esperança está tão morta que nem mesmo sabe que pode tê-la novamente; aquele que não conhece mais nem mesmo o significado e, possivelmente, nem mesmo a própria palavra. As palavras de Amélia — ditas de modo tão natural e despretensioso — iluminam, porém, um recôndito de sua consciência que se encontrava dormente desde a noite da inundação e despertam o sentimento que o clérigo, inconscientemente, se esforça para sufocar.


A inesperada redescoberta de sua fé também deixa claro para o religioso o verdadeiro motivo de sua revolta contra o Altíssimo. Trata-se de algo que Seu Júlio ressaltara ainda na manhã deste mesmo dia: nas semanas que antecederam sua tragédia pessoal, Amaro se considerava um ungido de Deus, um escolhido. A soberba de se achar superior aos demais membros da comunidade, ao menos perante o Criador, criara no pároco a certeza de que ele e os seus não estavam sujeitos aos acasos do destino. Mas a constatação de que seu posto sacerdotal e seu trabalho não lhe garantiram nenhum tratamento especial o magoaram de tal forma que ele preferiu colocar toda a culpa nos ombros do Onipotente.


— Não é possível compartilhar um pouco deste amor comigo? — a mulher pergunta, a voz modulando da exasperação para a resignação. — Será que neste mundo tão errático, alguém se importa com isso? Não mereço um pouco de sua compaixão, Amaro?


Meu Recebedor se apaixonou por Amélia na primeira vez em que se encontraram: um sentimento que não se enfraqueceu mesmo após um hiato de 30 anos. Todavia, o clérigo sabe que essa é uma trilha que não pode mais tomar pelas promessas que fez: para Deus, para a comunidade, para si. Finalmente, ele compreende que as mortes de seus pais e o reaparecimento súbito de sua grande paixão representam, na verdade, desafios impostos pelo Todo-poderoso para testar sua fé. Ele descobre que, se não os enfrentá-los, agirá como o Jesus Cristo de seus sonhos, aquele que falhou em percorrer todo o caminho até o Calvário e encerrar a sua missão morrendo na cruz.


— Você não merece a minha compaixão, Amélia, nem a de ninguém... — o eclesiástico diz, tentando dominar a pletora de emoções que se agitam convulsivamente dentro dele. — Você merece um amor verdadeiro, alguém que lhe faça feliz e lhe conforte em meio a esta loucura que nos cerca.




Eduardo Magela Rodrigues, 49 anos, é natural de Pará de Minas, MG, onde nasceu, cresceu e ainda vive. Sua formação acadêmica inclui uma graduação em Letras pela Faculdade de Pará de Minas (FAPAM), uma especialização em Engenharia de Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e uma especialização em Big Data e Machine Learning pela Faculdade XP Educação – IGTI. Há mais de duas décadas envolvido com Tecnologia da Informação, Rodrigues atualmente trabalha como Engenheiro de Software na Objective Solutions, de Curitiba-PR. Ele é autor da novela policial “A Flor Negra” (2017), do livro de contos “O Presidente e Outras Histórias” (2020) e da novela de ficção científica “Estação Eden” (2022).  V4T3R – Parte I: O Basilar e o Padre” é sua obra mais recente.