Pequena passarela sobre o abismo: Guilherme Ziggy explora travessias entre sonho, memória e morte


Segundo livro de poemas do autor explora travessias, sonho, memória e morte por meio de uma escrita mais sintética; lançamento acontece nesta sexta-feira (28), em São Paulo

Sete anos após estrear na poesia com Consultas autônomas (Selo Demônio Negro, 2019), Guilherme Ziggy retorna ao gênero com Pequena passarela sobre o abismo. Publicado pela Edições Loplop, o livro será lançado nesta sexta-feira, 28 de agosto, às 19h, no Cemitério de Automóveis, em São Paulo. 

Se no seu primeiro livro predominavam poemas mais longos e uma interlocução acentuada com a psicanálise, agora Ziggy opta pela síntese, pela concentração das imagens e por uma presença mais forte do surrealismo. A própria imagem que dá título ao livro parte desse universo. Segundo o autor, a inspiração veio do Segundo manifesto do surrealismo, de André Breton. A pequena passarela interessa a Ziggy justamente por não oferecer a solidez normalmente associada a uma ponte. É uma passagem frágil e provisória sobre aquilo que ameaça interromper o caminho.

“Gosto da ideia da pequena passarela porque ela sugere uma travessia frágil, provisória, diferente da segurança que uma ponte costuma representar. Ela está ligada à busca do maravilhoso no cotidiano e aos inúmeros atravessamentos que experimentamos ao longo da vida”, explica.

A noção de travessia também guia a apresentação escrita pelo poeta e pesquisador Elvio Fernandes. Em sua leitura, o livro reúne recorrentes “imagens do limiar”, entre elas margens, portas, janelas e falésias. Esses elementos trazem uma continuidade entre os poemas e fazem da passagem não apenas um caminho em direção a algum destino, mas um estado de suspensão no qual desejo, memória, sonho e morte permanecem em contato.

O universo de Pequena passarela sobre o abismo se alimenta das relações da poesia com outras manifestações artísticas. Literatura, cinema e música aparecem entre as referências mobilizadas pelo autor, mas, segundo Ziggy, não entram nos poemas apenas enquanto citações ou homenagens.

“Há poemas que nascem de uma imagem, de um filme, de uma canção ou de uma leitura. Em outros casos, essas referências aparecem durante a própria escrita, quase como se o poema as convocasse”, afirma. O interesse do poeta está na possibilidade de essas obras serem absorvidas pelo imaginário do poema e adquirirem novos sentidos dentro dele.

A presença do surrealismo alcança também a concepção visual da publicação. O projeto gráfico é assinado por Daniel Justi, enquanto a capa utiliza a collage La Divine Comédie. Le démon bleu pique l'ange jaune avec un bâton court, de Michael Löwy, criando uma correspondência entre a proposta gráfica e as referências que orientam a escrita..

Além do lançamento paulistano, o livro terá apresentação no Rio de Janeiro em 26 de setembro, na Livraria Alento, no Flamengo.


Poemas do livro

poemabismo


sentires todos teus fora de órbita

nas presas do mamute arquitetônico

nos aterros madrugadas

nesta crueldade imaterial

não existem mais boxeadores

satanistas na lapa

um quintal três cachorros

maya angelou não cura nada


hórus


sob os ombros do rei falcão

resplandece o luminoso

o estratosférico o cosmológico as nuances

os absurdos enxertos além-mundo

o cinegrafista das tremendas imagens

a vigília no sobressalto do inconsciente

a missa clandestina nas privadas

o sereno encantador de borboletas






Serviço

Pequena passarela sobre o abismo, de Guilherme Ziggy
Edições Loplop
Lançamento em São Paulo: 28 de agosto, às 19h
Local: Cemitério de Automóveis
Lançamento no Rio de Janeiro: 26 de setembro
Local: Livraria Alento, Flamengo