Em Do Picante à Política, pesquisador recupera espetáculos, grupos, espaços teatrais e os impactos da censura e da ditadura sobre a cena pernambucana
Em Do Picante à Política, pesquisador recupera espetáculos, grupos, espaços teatrais e os impactos da censura e da ditadura sobre a cena pernambucana
Entre o teatro de revista, as comédias populares, as experiências de renovação da cena e a repressão imposta após o Golpe Civil-Militar de 1964, o Recife viveu uma década de intensa atividade teatral. Esse período é objeto de Do Picante à Política: o teatro no Recife dos anos 1960, novo livro do jornalista e historiador do teatro Leidson Ferraz, que será lançado nesta quarta-feira, 26 de agosto, às 19h, no Teatro Arraial Ariano Suassuna, no bairro da Boa Vista, no Recife.
Resultado de anos de pesquisa, a publicação foi realizada com incentivo do Funcultura e estará disponível exclusivamente em formato digital, com download gratuito no site de Leidson Ferraz a partir da noite do lançamento. Durante o encontro, com entrada franca, o pesquisador apresentará curiosidades sobre a cena teatral da época e imagens raras, além de compartilhar aspectos do processo de pesquisa historiográfica que deu origem à obra.
Doutor em Artes Cênicas pela UNIRIO e atualmente em estágio de pós-doutorado em Teatro na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Ferraz volta seu olhar para as diferentes expressões que conviveram nos palcos recifenses durante os anos 1960. O levantamento contempla desde o chamado teatro rebolado, as comédias e os vaudevilles de caráter malicioso até propostas que buscavam novas relações com a cultura popular e os musicais conhecidos como “shows-experiência”.
Espaços como a Festa da Mocidade e o Teatro Marrocos recebiam espetáculos voltados principalmente para o público popular, alguns deles impulsionados pela presença de números de striptease. Paralelamente, outras vertentes da produção teatral conviviam com práticas tradicionais, entre elas a permanência do “ponto”, profissional encarregado de soprar as falas aos atores, e com tentativas de renovação estética.
O período também foi marcado pelas dificuldades de infraestrutura. Segundo a pesquisa, teatros históricos, entre eles o Parque e o Santa Isabel, enfrentavam problemas estruturais em meio ao abandono do poder público. Ao mesmo tempo, novos espaços passaram a integrar a vida cultural da cidade, entre eles o Teatro de Arena, o Teatro da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP), a sede do Teatro Popular do Nordeste (TPN) e o Teatro Novo.
O teatro sob a ditadura
A instauração do Golpe Civil-Militar de 1964 alterou também as condições de produção artística. A demora da Censura Federal na avaliação dos textos, a proibição de peças, o desmonte de grupos e espetáculos e as ameaças sofridas por integrantes da classe artística passaram a fazer parte daquele cenário.
Ferraz observa que, nos primeiros anos da ditadura, a repressão às artes cênicas no Recife teria sido mais branda em comparação com cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Isso, no entanto, não significou ausência de perseguição. “Houve peças proibidas, grupos e espetáculos desfeitos e o terror do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) pairando ameaçadoramente sobre a atividade teatral da época”, afirma o pesquisador.
A própria concepção visual do livro procura traduzir os contrastes daquele momento. Com design de Claudio Lira, a capa coloca o glamour e a liberalidade do teatro de revista, representados pela modelo Daise Alves, e a violência, os protestos, o medo e a perseguição da censura durante a ditadura. Para chegar a esse panorama, Leidson pesquisou milhares de jornais e periódicos, além de livros, artigos, programas de espetáculos e fotografias raras. O levantamento procura recuperar tanto grupos de maior projeção quanto aqueles que permaneceram às margens dos registros mais conhecidos da história teatral, contemplando ainda festivais, intercâmbios, visitas de artistas, perdas e processos censórios.
“É um período de extrema ebulição e tentei pormenorizar as atividades cênicas daquele período, dando visibilidade aos mais importantes grupos, mas também àqueles que estavam à margem”, explica Ferraz. Do Picante à Política é a 14ª publicação do pesquisador dedicada à investigação da atividade teatral.
ServiçoLançamento de Do Picante à Política: o teatro no Recife dos anos 1960
Autor: Leidson Ferraz
Data: 26 de agosto de 2026, quarta-feira
Horário: 19h
Local: Teatro Arraial Ariano Suassuna
Endereço: Rua da Aurora, 457, Boa Vista, Recife
Entrada: gratuita
Livro: edição virtual disponível gratuitamente para download no site do autor a partir da noite do lançamento.
.jpeg)

Redes Sociais