O que é “isso”… a filosofia? | Luís de Barreiros Tavares

 por Luís de Barreiros Tavares |


ares… cores (detalhe de um pôr-de-sol) — fotografia © Luís de Barreiros Tavares

O que é “isso”… a filosofia?



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Ventos da filosofia I

in memoriam Xará, um velho lobo do mar que me contava histórias marítimas de marinheiros e tempestades

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O que é isso… a filosofia? – talvez uns preliminares à questão “o que é?” *

C’est à mon avis, la curiosité seule qui fait courir sur le rivage pour voir un vaisseau que la tempête va submerger.

Voltaire — citado por Hans Blumenberg

… há cerca de três anos aconteceu-me uma coisa como nunca acontecera a nenhum mortal, ou a que, pelo menos, nenhum mortal sobreviveu, para contar.

Edgar Allan Poe

Así mi vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del outro. No sé cual de los dos escribe esta página.

Jorge Luis Borges, “Borges e Eu” [há quem diga que é a melhor página de Borges]

I

Comecemos por esta definição um tanto preliminar e primária, digamos assim: para além da conhecida amizade ou amor pela sabedoria ou saber (philo-sophia), a filosofia é, também, um querer saber.

Mas há também aqui um paradoxo fundamental. A filosofia guarda também um “não querer saber”. Ou um “querer não saber” (soando a Bartleby, de Melville: o célebre “preferiria não o fazer” – I would prefer not to). É que, se o sujeito souber, de todo, sempre já não quer saber, pois já tudo sabe. E nada mais há a saber. É um dos mal-entendidos de uma certa pretensão científica (ela pretende que, a cada passo, tudo sabe até à data; há um saber tudo, de cada vez).

Mas o filosofar e a filosofia, a todo o momento, e em cada época, é o lugar de um intervalo entre o querer saber e o não querer saber. Não é por isso que se entende que, por exemplo, Sócrates não sabe mais do que Heidegger? Não depreenderemos isto a partir do que o pensador alemão escreve em O fim da filosofia e a tarefa do pensamento [Das Ende der Philosophie und die Aufgabe des Denkens]? “O pensamento de Platão não é mais perfeito do que o de Parménides. A filosofia de Hegel não é mais perfeita do que a de Kant.” Em contrapartida, uma certa visão científica entende o saber da ciência num mero aperfeiçoamento cronológico, num mero crescendo quantitativo.

O saber, na sua suposta totalidade de verdade encontrada, seria absolutamente assustador. Um susto de morte! O humano, a humanidade consegue saber a data da sua morte, do seu fim? Ela quer saber quando é a sua morte (a hora, o ano, a década,  e século…)? A verdade anda também por aqui, a busca da verdade da morte, e a consequente busca da imortalidade (tão procurada hoje pela ciência e pelo dinheiro). No entanto, há também o mistério da existência sem o reduzirmos exclusivamente ao mistério da transcendência, do sentido do religioso, dimensão fundamental do humano.

II

Queremos e não queremos saber, ou queremos não saber. Há uma ambiguidade ou ambivalência fundamental no espanto filosófico. Espanto ou admiração ancestral e constitutiva ante o espectáculo do mundo: thaumazein – admiração que interroga (?), suspende, e afirma, exclama (!) (Platão, Teeteto, 155 d; Aristóteles, Metafísica 982 b – veja-se os nossos estudos aquiaqui). 

Por outro lado, pode dizer-se que fazemos por saber. A tal actividade e prática do sophos (“perito”) que António de Castro Caeiro relembra (O que é a filosofia?): não apenas a “amizade (philia), ou amor pela sabedoria (sophia)” (philo-sophia), mas também — segundo as etimologias — “a obsessão compulsiva pela transparência”. Sophia, assinala o autor, remete mais propriamente para “transparência”. Por exemplo: “As palavras da mesma família como saphēneia, querem dizer «claridade», «clareza», «transparência».” Mas de que transparência se trata? O que “quer dizer” (expressão frequentemente usada pelo autor) “transparência”? Haverá uma transparência esterilizada ou asséptica? Não é o momento para pensar esta difícil questão.

Dissemos: fazemos por saber. Mas também fazemos por não saber. Pois, o saber enquanto tal — o saber a verdade –, não incorrerá o humano no aterrador absoluto? Seria a morte. Mas, na verdade, passe a expressão, o humano — ou mais propriamente a humanidade — mais não quer do que assistir à sua própria morte, ao seu fim. Presenciá-la. Estranha e aqui perigosa alteridade de si (o outro do/no humano?). Por outras palavras: o humano como espectador do espectáculo do seu próprio fim? Em última análise, o fim absoluto do espectáculo como espectáculo absoluto? Com efeito, o teatro de operações da guerra transformou-se hoje no teatro mediático da guerra. 

III

Hans Blumenberg faz uma interessante leitura sobre um certo espectáculo no livro Naufrágio com Espectador

“O naufrágio, considerado como ultrapassado, é a figura de uma experiência filosófica inicial. Conta-se que o fundador da escola estóica, Zenão de Chipre, tinha sofrido um naufrágio perto do Pireu ao viajar com uma carga de púrpura fenícia e veio assim à filosofia por ter chegado à conclusão: nyn euploeka, hote nenauageka — só como naufrágio naveguei pelo mar com felicidade.” (Hans Blumenberg — referência de Diógenes de Laércio)

E Edgar Allan Poe escreveu o extraordinário conto Descida ao Maelström (ver epígrafe). E José Bragança de Miranda teceu uma interessante leitura do conto (“Queda sem fim”), estabelecendo um nexo entre o poder do vórtice do Maelström e a técnica: “Criou-se um espaço do heteróclito, que se mantém apenas pela velocidade imprimida pela técnica, onde tudo se precipita em estado de fragmento.”

Mas não seria isso, aquele auto-espectáculo da morte do homem — esse “teatro do mundo” levado ao extremo (Blumenberg) — um modo pretensamente e paradoxalmente radical de, ao mesmo tempo, consumar a morte, controlá-la e superá-la? Não seria este o saber absoluto? Mas, de facto, o que é a morte? Não será a arma nuclear um dos anúncios tecnocientíficos por excelência dessa possibilidade afinal impossível: a possibilidade do não-espectáculo (o que é e já não é)? Os ecrãs dos media e das navegações da Internet procuram-no. Eles seriam o acompanhamento paralelo dessa catástrofe até ao apagamento total.


Bomba atómica no Japão (1945). Frame de um clip documental do filme “ O espelho” (1975) de Antdrei Tarkovsky.

IV



Dissemos acima: “na verdade”. Com efeito, esta palavra remete para o grego aletheia: o velamento-desvelamento e desocultação. Heidegger estudou profundamente esta questão da des-ocultação (aletheia) no contexto e contraponto com a chamada “Teoria das Ideias” (e a “soberana Ideia de Bem” – idea tou agathon) de Platão, sustentando que o filósofo grego empreende já a questão da verdade como rectidão (“An der orthotes, der Richtigkeit des Blickens, liegt alles.”) (“Tudo é subordinado à orthotes, à exactidão do olhar.”) (Heidegger). Ou: “Wahrheit wird zur orthotes, zur Richtigkeit des Vernehmens und Aussagens.” (“A verdade torna-se orthotes, exactidão da percepção e da linguagem.”) (Heidegger). 

A orthotes afasta-se, por assim dizer, do pensar e ser pré-socrático e poético de Parménides, por exemplo: 1. com o relevar do ser, que é, na mesmidade com o pensar: To gar auto noein estin te kai einai (o mesmo, com efeito, é perceber (pensar) tal como ser – fr. 3 na tradução de Heidegger, Identidade e diferença; ver nosso estudo); e com o dizer: khre to legein to noein t'eon emmenai, esti gar einai (É necessário que o dizer e pensar que é seja, pois pode ser – tradução de José Trindade Santos; ver estudo anteriormente referido e J. T. Santos). 2. Orthotes afastando-se também da aletheia e do seu movimento de des-velamento em Heraclito, cujo fr. 30 é bem indicativo: 

“Esta ordem do mundo (kosmon) [a mesma de todas], não a criou nenhum dos deuses, nem dos homens, mas sempre foi e é e será: um fogo sempre vivo (pyr aeizoun), que se acende com medida e com medida se extingue (aptomenon metra kai aposbenumenon metra).”

O não-velado ou não-velamento ainda no seu movimento de a-letheia enquanto des-velamento ou não-ocultação.

Algo pulsante: a physis, escreve Alain Badiou, “é o aparecer, ou eclosão, do próprio ser, o ad-vir da sua presença […]” (L’être et l’événement, p. 141). E Badiou, pensando com Heidegger: “[…] o ser pensado como physis é […] o equilíbrio do que se mantém no pleno expandimento [l’épanouissemnent — ou desabrochamento] do seu limite.” (op. cit. 145). 

Assim, já numa outra via, ao contrário da aletheia, na orthotes, “a percepção conforma-se ao que deve ser visto. É aí a «e-vidência» (Aussehen) do que é. Esta adaptação da percepção, do idein, à idea, arrasta uma homoiosis, um acordo do conhecimento à coisa ela mesma (eine Ubcreinstimmung des Erkennens mit der Sache selbst.)” (Heidegger; e no original alemão). Este traçado conduziria à Veritas est adaequatio rei et intelletus da escolástica medieval (Tomás de Aquino — “Verdade é adequação da realidade e do intelecto”), a qual, em linhas gerais, abriria caminho à objectividade científica e à separação sujeito/objecto na modernidade que tem o seu momento crucial e inicial em Descartes.

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Nota bene — O que é isso… a filosofia? Quando escrevi “O que é isso” foi com a perspectiva gramatical de indagar em primeiro lugar o interlocutor ou o leitor sobre isso (mais próximo dele, em vez de “isto”, mais próximo de mim ou do sujeito que pergunta): “a filosofia”. Mas também me incluo numa auto-interpelação, como outro, sempre já, de mim. Num outro contexto, pensemos no alcance genial da heteronímia literária e poética de Fernando Pessoa (por exemplo: “Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.” (Álvaro de Campos)). As reticências, como sinal gráfico de pontuação, remetem para o sentido de interrupção ou suspensão do discurso ou da palavra. Este título ecoa de algum modo um outro de Martin Heidegger, a conferência de 1955: O que é isto — a filosofia? [Was ist das — die Philosophie?]. O “isto” também tem aqui toda a pertinência. Será, porventura, mais instigante. Todavia, empreguei o “isso” como um novo desafio e nova expectativa do que leva a pensar. Ocorrem-me alguns títulos: Ortega y Gasset escreveu Qué és filosofia? (1929), Gilles Deleuze e Félix Guattari: Qu’est-ce que la philosophie? (1991), Giorgio Agamben, Che cos’è la filosofia? (2016). Em português, António de Castro Caeiro publicou recentemente O que é a filosofia? (2023) (foi meu professor). Dir-se-ia que é próprio do trabalho da filosofia andar em torno dela mesma, e não apenas da sophia (philo-sophia). Daí a pergunta sobre ela. E daí os “quebra-cabeças inteiramente salutares”, de que fala Heidegger. Talvez se possa perguntar, não sem um sentido espirituoso: “o que é «o que é a filosofia?»”? Eis duas curiosas interrogações.


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*Nota— A estrutura deste texto foi escrita um tanto a quente, mas sem pressão, numa esplanada de um café durante pouco mais de uma hora. O texto foi concluído durante os dias seguintes, aos poucos, com acrescentos significativos, múltiplos reparos, referências e citações. Que se me perdoe alguma imprecisão. Mas a filosofia está aí também para correr riscos. As traduções do francês são da nossa responsabilidade.

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Post scriptum 

Suaue, mari magno turbantibus aequora uentis,

e terra magnum alterius spectare laborem

[Brandura, quando os ventos turbilhonam o mar imenso, / ao observar da margem o outro em grandes esforços

Lucrécio — De la nature — citado por Hans Blumenberg — trad. L. de B. Tavares

O homem conduz a sua vida e ergue a suas instituições sobre terra firme. Todavia, procura compreender o curso da sua existência na sua totalidade, de preferência, com a metáfora da navegação temerária.

Hans Blumenberg

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Dois estudos e uma entrevista:

A Filosofia…? — O que é…? 

https://medium.com/revista-caliban/a-filosofia-o-que-%C3%A9-33a3075124ba

a letra minúscula: deus — poesia — filosofia (Poeiras da filosofia XX)

https://www.miradajanela.com/2026/04/a-letra-minuscula-deuspoesiafilosofia.html

Parménides: Antepredicatividade e autorreferencialidade … [entrevista a José Trindade Santos]

https://revistacaliban.net/parm%C3%A9nides-antepredicatividade-autorreferencialidade-e-outras-quest%C3%B5es-a44cb17ed2cb





Luís de Barreiros Tavares nasceu em Lisboa em 1962. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa (2007), tendo antes frequentado e concluído cadeiras de Filosofia nas Universidades Católica e Clássica. Autor de alguns livros, entre outros: O Acto de Escrita de Fernando Pessoa; Em Roda Livre, com Eduardo Lourenço; Sulcos, com Jean-Luc Nancy; 5 de Orpheu (Almada — Amadeo — Pessoa — Santa Rita Pintor — Sá-Carneiro). Colaborador regular nas revistas “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (Br)”. Publicações nas revistas “Comunicação e Sociedade” (CECS – UMinho), Configurações (UMinho) “Comunicação e Linguagens” (CECL – UNLisboa), “Pessoa Plural” (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes), “A Ideia”, “Philosophy@Lisbon” (CFUL – UL), ”Zunái (Br)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (It.), “Ameopoema” (Br)”, “Grou Cultura & Arte (Br)”, “Athena”, etc. Vice-director da revista “Nova Águia”. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono (MIL). Editor das edições-vídeo “Passante”. De um modo cifrado, mantém-se artista plástico. Já deu umas aulas. Responsável pelo espólio do poeta Manoel Tavares Rodrigues-Leal.