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 por Argentina Castro__




por Claudiana Alencar__






por Argentina Castro__


 

por Argentina Castro__



 por Argentina Castro__

 


 por Argentina Castro__





Foto Mohamed Nohassi

 por Iaranda Barbosa__







Abayomi

 

Se uma mentira dita mil vezes se torna uma verdade, o que dizer de uma mentira contada, repetida e legitimada durante exatos 133 anos? O 13 de maio de 1888 não representou nem representa a libertação dos povos africanos escravizados. Tampouco a Princesa Isabel é o símbolo maior de salvação e luta abolicionista. Diversos são os mecanismos de força e opressão utilizados pelos grupos que sempre estiveram no comando e almejam perpetuar a hegemonia do poder. Seja por meio de ferramentas explícitas seja por estratégias subliminares, o pensamento dominante criou a imagem do povo preto sob inúmeros estereótipos, demonizando-a, inferiorizando-a, incapacitando-a. Logo, a sociedade reforça e reproduz discursos pautados, sobretudo, no embuste da adaptação da mão de obra negra em detrimento da indígena e na figura da herdeira de Dom Pedro II enquanto a grande redentora dos negros escravizados.


É na contracorrente dessas falácias, ainda hoje contadas e reforçadas por alguns livros de História e nem sempre discutidas nas salas de aula, que surge a Antologia das Mulheres Pretas, uma edição publicada pelo Selo Mirada Editorial, destinada a reunir mulheres pretas conscientes da ancestralidade e das heranças deixadas por guerreiras tais quais Dandara e Tereza de Benguela. Nesse sentido, o encontro aqui promovido surge enquanto manifesto, repúdio, repulsa, recusa para com a distorção, a falta de respeito, a não valorização da nossa história e a negação da nossa cultura. Logo, a Antologia das Mulheres Pretas não surge para comemorar esta data, mas sim para trazer reflexões, inquietações e discussões a respeito de infindáveis problemáticas a ela relacionadas.


Sob a temática “Liberdade”, cuja concepção abarca diversos sentidos e significados, mulheres de todas as partes do país deixaram registradas suas inquietações e visões de mundo através de materiais inéditos produzidos sob a forma de prosa, poemas, fotografias e ilustrações. Espaços como este são de extrema importância para que contemos nossas próprias histórias e pratiquemos o que Conceição Evaristo denomina de escrevivências. É imprescindível ouvirmos nossa própria voz e as vozes de outras mulheres com experiências e concepções de mundo diversas para que possamos compartilhar vivências, pensamentos e sentimentos, a fim de convergir para diálogos e aprendizados sem perder de vista a luta contínua e árdua contra as mais diferentes e cruéis formas de discriminação.


Lutamos por sermos mulheres, lutamos por sermos pretas, lutamos, novamente recorrendo ao pensamento de Conceição Evaristo, para forçar passagens e ocupar espaços a nós ampla e historicamente negados por uma estrutura racista, patriarcal, sexista e misógina que a todo momento cria estratégias e se utiliza de instrumentos para impedir nossa ascensão social, política, intelectual, econômica.


É exatamente por sermos conscientes desses sistemas opressores que decidimos nos unir e criar um espaço nosso, onde possamos nos expressar, utilizando nossas produções como arma libertária. Através da nossa arte mais e mais mulheres podem ouvir nossos gritos, protestos, louvores e apelos e compreender que eles são um convite para que elas também se juntem à luta. Locais de comunhão promovem o autocuidado, o amor próprio, a autoestima, o olhar sobre si mesma. Nesse sentido, a Antologia das Mulheres Pretas se propôs a disponibilizar gratuitamente os textos aqui selecionados, para que o número de pessoas seja cada vez maior. Dessa maneira, ampliamos o movimento simultâneo de nos aquilombar e expandir para irrompermos novos espaços e conquistarmos ainda mais a liberdade de corpos, cabelo, pensamento, espírito, voz, ação, enfim, para que alcancemos o rompimento de todas as grades, mordaças e amarras seculares que tentaram nos aprisionar, nos invisibilizar e nos silenciar em meio aos mais variados âmbitos. 


            Axé.


Iaranda Barbosa


20 de abril de 2021

 

Organização & Curadoria


Iaranda Barbosa

Liliana Ripardo

Juliana Berlim

 

Idealização 


Argentina Castro



Capa


Deborah Dornellas 



 

Revisão


Carla Vilella de Mattos 



Diagramação


Rebeca Gadelha

 

Autoras (Prosa/ Poesia)


Facetas de liberdade – Amanda Izaias da Silva

Respiro – Lenita Ramos Vasconcelos

Eu poeta - Natália Pinheiro

Reflexões  - Isabete Fagundes

Verdade e liberdade - Gabriella Poles

O sequestro – Alessandra Barbosa Adão

Quando existir é subverter – Desirée Simões

Poderosa filha Malkia – Sheila Martins

Liberdade às Yabas - Delma Gonçalves 

Alguém viu a liberdade - Fátima Farias

 

Ilustrações/Fotografias


Iansã – Gilda Portela

Ensaio "Toda nudez será castigada"– Amanda Cardoso

Danielle dos Anjos

 

Autoras Convidadas


Celeste Estrela (prosa)

Deborah Dornellas (ilustrações)

Lilia Guerra (prosa)

Taylane Cruz (prosa) 


Download: aqui


 

 

 

 por Argentina Castro__


Tyler Donaghy


Sinto um sono fora do comum. Um amigo diz que é fuga. Logo eu que não sou mulher de fugir. Uma dor de cabeça que não para. Estamos todos a esperar a morte sem possibilidade de luta. Adoecidos por dentro e por fora. Nem ruas, nem coquetéis. Mascarados e sem sentidos.


Os cães de casa me lambem dia e noite, os pés.


"Estou preparado com produtos de higiene, só não estou para a morte" me diz o Zé nosso amigo de infância e que, depois de anos e anos preso, agora liberto, volta a andar por essa casa/abrigo. O nego Zé, vive de reciclagem e acaba de levar o que restou da gelaleia, nossa biblioteca de rua. Estou triste, imensamente triste com o mundo ao meu redor. E quem não?


Tenho me deparado com cada tipo de gente que nem sei se vale à pena existir. Café por cima de café para me manter em pé.


A mãe mais forte que eu, sempre! Segura minha mão em cada, minha, tão minha, escuridão.


" Você foi contemplado com uma bolsa com de mais de 70% na sua pós graduação". Para quê diabos quero outra pós-graduação se o destino é a morte? “


Já sei de e salteado para quê me serve o conhecer.


Cá estou, sem saber pra onde vou, nesse mundo de cão.


Aprendo e ensino e, toda vez, me perco.


Sou só um corpo nú e empobrecido pronto, nem tanto, pra sofrer os botes. Ando tão cansada. E quem não?


Minha sobrinha aprendeu a palavra "renomada" e vive a dizer que sou uma escritora renomada. Não sei o que ela entendeu bem dessa palavra, mas importa que ela me veja de forma tão linda quando me vejo em processo de decomposição. Hoje fizemos juntas, um cordel. Me enche de emoção ver um ser humano tão miúdo em processo de criação.


Mas hoje estou como uma bruxa velha querendo tão somente um fogo brando para aquecer ferozmente as minhas ervas mortais. Hoje, eu sou uma árvore triste.




Argentina Castro
- Mestre em Antropologia, escritora de poemas, contos, crônicas. Articuladora e Mediadora da biblioteca comunitária Papoco de Ideias.

 

por Argentina Castro__

Intervenção na fotografia: Priscilla Du Preez


Por Rebeca Gadelha__




por Taciana Oliveira__